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NOTAS SOLTAS

A PRIMEIRA CORRIDA DE TOUROS À PORTUGUESA, EM FRANÇA

 

Estamos em 1965. A tradicional “feria” de Bayonne-Biarritz, no Sul da França, ia começar. A enorme e excelente praça de touros estava engalanada. Nas ruas, estandartes, bandas de música, foguetes, fogos de artifício, anunciavam o grande acontecimento anual. El Cordobés e os maiores matadores da época estavam contratados.

Cônsul de Portugal, chefe de posto naquela região há pouco, percorri avidamente o programa da “temporada”. Aficionado do nosso toureio, procurei a data de uma Corrida à Portuguesa. Sem sucesso! Tentei então encontrar de entre os artistas algum nome português. Desilusão... Não havia!

Fui informar-me. Responderam-me “Corrida à Portuguesa? Como é?”. No mesmo dia, procurei o Sr. Marcel Dangou, dono da praça de touros de Bayonne. Disse-me desconhecer a existência de tal espectáculo. Pesquisei. Conclui que nunca tinha sido realizada uma corrida de touros à portuguesa numa das inúmeras e muito aficionadas praças de França. Mais, os franceses ignoravam completamente que existia uma maneira de tourear que nos era própria! Estavam convencidos que só existia uma forma de lidar touros, a espanhola!

Com os meus 25 anos, não podia acreditar no que ouvia. Como era possível que a mais tradicional das festas portuguesas, sem par no mundo, nunca tivesse sido mostrada naquele país?

Decidi que era meu dever, senão de diplomata pelo menos de português, dar a conhecer aos franceses os cavaleiros e os forcados, mostrar a beleza da nossa corrida e provar que a festa espanhola não era a única.

Contactei os empresários locais. Nenhum quis correr o risco da “inovação”. Tinha eu de arriscar e organizar o grande espectáculo. E foi o que fiz!

Planeei então, para o ano de 1966, toda uma “Semana Portuguesa na Costa Basca”, que enquadrasse a primeira Corrida Portuguesa em França e tocasse assuntos culturais tão diferentes quanto possível: touros, música, pintura, cinema, conferências, tudo acompanhado por diferentes recepções e pelo famoso “Baile Internacional das Debutantes”.

 

Setembro de 1966

Programa da

Semana Portuguesa na Costa Basca

 

Domingo, dia 11 - 16,30 h Corrida à Portuguesa
Praça de Touros de Bayonne
2ª feira, dia 12 - 22,30 h Baile Internacional das Debutantes, Hotel Miramar Biarritz
De 13 a 28 Exposição de Pintura “ Portugal visto pelos Pintores da Escola de Paris”, Salão Nobre Hotel du Palais, Biarritz
3ª feira, dia 13 - 21,30 h Concerto de musica portuguesa para 2 pianos
Casino Municipal, Biarritz
4ª feira, dia 14 - 18,30 h Conferência “A Arte Portuguesa na Época das Descobertas”
Teatro Municipal, Bayonne
5ª feira, dia 15 - 18,30 h Filme “Rapsódia Portuguesa
Casino Municipal, Biarritz
6ª feira, dia 16 - 18,30 h Conferência “A Arte Gótica em Portugal”
Casino Municipal, Biarritz
6ª feira, dia 16 - 22,30 h Jantar de Gala “A amizade Franco- Portuguesa”
Casino Bellevue, Biarritz
Sábado, dia 17 - 19 h “Cocktail d’Adieu”

 

Não tendo conseguido qualquer ajuda financeira do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou de qualquer outra entidade oficial portuguesa, o problema era de difícil resolução... E foram necessários muitos meses de contactos, de propostas, de negociações, para pôr de pé o evento, cuja responsabilidade financeira assumi inteiramente. Aos 25 anos ...

No que respeita à Corrida Portuguesa, objecto desta conversa, escrevi aos meus amigos Mestre João Branco Núncio, José Barahona Núncio, José Samuel Lupi e Nuno Salvação Barreto. Expliquei-lhes o meu objectivo. Disse-lhes que não tinha qualquer subsídio, que era eu o único responsável, que evidentemente a minha iniciativa não tinha qualquer intenção financeira em meu proveito, que se tratava de uma corrida de beneficência em favor do “Centro de Acolhimento de Bayonne” (estávamos no forte da época da emigração portuguesa), e falei-lhes de patriotismo.

O primeiro a responder foi João Núncio. Uma carta que guardo com carinho. Felicitava-me pela iniciativa, aceitava o convite e dizia-me que, dadas as circunstancias, iria a Bayonne por um preço que conclui simbólico, pois idêntico ao que pedia para se deslocar de Alcácer ao Campo Pequeno. Informava ainda que o filho, José Núncio, iria pelo mesmo preço, e acrescentava em post-scriptum “Manuel Heleno, se a corrida der prejuízo, falaremos ...”.

Logo a seguir recebi uma mensagem de Nuno Salvação Barreto: “Manel, nós vamos de graça”. Sem mais perca de tempo, telefonei ao José Lupi. Deixei transparecer os montantes pedidos por João e José Núncio. Respondeu-me “Se o João vai por esse preço eu não quero mais...”

Como é fácil trabalhar com Senhores!

 Os touros eram de ferro Rio Frio. Correspondendo à minha exigência, todos tinham realmente mais de 500 quilos. E eram lindos! A tal ponto que há pouco tempo as fotografias do curro ainda estavam expostas na secretaria da Praça de Bayonne.

 Enfim, consegui interessar a imprensa francesa, particularmente a regional e a parisiense, pela iniciativa de uma corrida para eles desconhecida, sem morte e mais próxima do espírito ecológico moderno. O Fígaro publicou vários artigos! Um deles ocupou uma página inteira!

O interesse pela corrida estava assegurado e a bilheteira vendida...

 Entretanto, telefonaram-me muitos aficionados portugueses. Queriam ir a França ver a corrida e muitos até desejavam reservar no fabuloso Hotel du Palais, em Biarritz, hotel para onde eu tinha convidado todos os cavaleiros e forcados. O Manuel Conde foi um deles. No dia seguinte ao da chegada, disse-me:”Bem, você reservou um quarto em nome de Manuel Conde, os franceses perceberam que eu era “Monsieur le Comte Manuel”, deram-me o quarto da imperatriz e, resultado, vou sair daqui sem um franco!”

 Dado que ao então Chefe da Casa Real Portuguesa não foi possível aceitar o meu convite para presidir a corrida, convidei para esse fim S.A.R. a Infanta Pilar de Bourbon e as 150 jovens Senhoras presentes para o Baile das Debutantes.

 João Núncio colocou o 1º ferro português em França e, com Quo Vadis, brindou o 1º curto a S.A.R. a Infanta de Espanha.

José Núncio com Zamorim e José Lupi com Sueste e Ultimato, continuaram o êxito iniciado pelo Mestre e triunfaram magnificamente. O entusiasmo subia a cada ferro, a assistência aplaudia de pé, tendo sido momentos muito altos as rijas pegas realizadas, uma delas por Nuno Salvação Barreto.

Os touros foram extremamente bravos e regulares, o que permitiu que a corrida começada com o hino nacional português terminasse em festa generalizada, com um público que saltou para a arena e dançou ao som das várias bandas de música presentes. Um sucesso...

 Como não podia deixar de ser a imprensa insistiu no triunfo da corrida. Falou com entusiasmo dos cavaleiros, da equitação portuguesa e da beleza dos cavalos, extasiou-se com a coragem dos forcados (a quem chamou com admiração “les jeunes fous”), apreciou os trajos dos artistas e os arreios dos corcéis, teceu os maiores elogios aos touros “que não caem”, publicou inúmeros artigos que foram extremamente úteis para dar a conhecer o toureio português em França.

 Nos anos seguintes, foi minha prioridade aproveitar o êxito conseguido e incrementar a corrida portuguesa em França. Com essa finalidade, intervim junto dos empresários de quase todas as praças de touros naquele país no sentido de os motivar para incluírem nas suas festas a nossa corrida. O resultado foi a organização de “la portugaise” nas praças de Mont de Marsan, Dax, Vic Fezensac, Béziers, Arles, Fréjus, Nimes, etc., com a inestimável ajuda de Nuno Salvação Barreto, que passou a ser o empresário e a quem muito devemos pelos riscos assumidos.

 E foi assim que a corrida portuguesa, desconhecida em França em 1965, passou a fazer parte dos hábitos gauleses, tendo havido anos com mais de 30 corridas em que sempre se utilizaram curros portugueses, com as consequências económicas inerentes.

 Enfim, chegamos ao essencial deste escrito, o de relembrar que sem a compreensão e entusiasmo dos pioneiros que foram João Branco Núncio, José Barahona Núncio, José Samuel Lupi, Nuno Salvação Barreto e todos os participantes, a primeira corrida de touros à portuguesa em França não se poderia ter realizado e talvez a nossa festa ainda não estivesse implantada naquele país. Que todos os aficionados e que todos os artistas da festa brava não esqueçam aqueles que com o seu patriotismo deram a conhecer aos franceses o mais português dos espectáculos, com particular destaque para Nuno Salvação Barreto que soube aproveitar o êxito da primeira corrida para ao longo dos anos implementar definitivamente a tourada em França.

 Manuel Heleno

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